Ando com a mente inquieta, até feliz, por começar a ler Os Condenados da Terra, (escrito em 1961 por Frantz Fanon), para a disciplina Cidades Africanas, na pós graduação da UFBA.
Guardei algumas frases no meu caderninho azul enquanto processo em mim uma inter-relação da situação contemporânea com a minha vivência e o contexto que me molda e as feridas abertas da longa e violenta colonização europeia, sobre diversas regiões da África ao longo dos séculos.
Fui lendo e lembrando de mim e de outras pessoas negras, conhecidas e até bem próximas, que apareciam ao longo da leitura no meu imaginário, como se fossemos traduções dos apontamentos do Fanon. Passei a refletir sobre relações conflituosas e violentas que tive e ainda tenho com pessoas negras e buscando entender o que sustenta essa fragilidade.
A costura feita pela minha mente chega até a identificar Paulo Freire (que escreveu Pedagogia do Oprimido, em 1968) com a frase “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”, o que está atrelado ao despertar da condição de oprimido e de como esse não despertar leva ao desejo da troca de lugar com o opressor, justamente quando vejo Fanon afirmar que o colonizado sonha em substituir o colono, no sentido de usufruir dos privilégios dos últimos, porém os dois autores já reconheciam que isso não cura feridas abertas.
Pela ousadia digo, seguindo a influência da leitura, que o caminho se faz pela atenção aos nossos, pelo olhar sobre os nossos e não somente sobre quem nos mata. Sartre fala no prefácio que os próprios brancos que devem se observar. Colonizadores continuam existindo, tentam dominar nossos corpos, nossos comportamentos, nossos sonhos e nesse livro o autor já alertava que a luz está justamente sobre os povos negros, que o resgate também se faz sobre o despertar e sobre o entendimento do sistema. Precisamos saber quem somos, de onde viemos de fato e para onde queremos ir, livres do condicionamento mental imposto pela colonização.
O desmonte se faz voltando para o povo negro.
Saindo do desejo de querer viver como uma branca. Mas reforçando o orgulho de ser negra e reconhecendo toda a força coletiva inerente dos nossos. Valorizando mais os nossos.
Sem romantizar relações. Eu olho para o que é possível. Busquemos nos aprimorar no combate ao racismo mas sem embranquecer nossos passos.