NA PELE DELE: LÁZARO RAMOS

Acabei de lei o ‘Na minha pele’, do Lázaro Ramos. Demorei para ler por não ter dinheiro extra para adquirir a versão impressa. Consegui comprar no último sábado e fui devora-lo, tomada por uma grande curiosidade diante dos milhões de elogios e recomendações acumulados a respeito dessa leitura.

Já digo logo que ele vai falar sobre questões raciais em quase todo o volume. Não por acaso o titulo do livro foi escolhido.

Em alguns trechos me identifiquei, em outros discordei e problematizei na minha mente. Normal. Não tem como não problematizar, uma vez que somos seres diferentes que compartilham apenas algumas experiências do racismo brasileiro. Mulheres e homens negros não percebem o mundo da mesma forma, tá bem?

Por vezes senti vontade de apedrejá-lo. “O amor não tem cor”? Ah Lázaro…como assim? Que desserviço usar essa frase. Por outro lado usei esses e outros conflitos nessa leitura como exercícios de paciência, para buscar entender esse outro diferente, um pouco mais distante da minha régua.

O amor tem cor, sim, tá Lázaro. E você sabe bem disso, pelo que percebi no restante do capítulo rs. (Leiam o livro e procurem ler mais sobre solidão da mulher negra – solidão da menina negra)

Lázaro me faz olhar pra dentro. Pra dentro e pro passado. Me deu vontade de ter crescido aqui. Acho massa poder ler e reconhecer os bairros soteropolitanos, graças ao privilégio de agora morar na cidade onde ele cresceu e formou suas bases como ator, enraizado no reconhecimento precoce (para mim) de sua negritude, mesmo que esse assunto nunca tivesse sido pauta dentro de casa. Precoce porque eu mesma me descobri negra há cinco anos e agora sigo me aproximando dos trinta.

Busquei Salvador para mergulhar mais nessa minha negritude. E estou em um processo ímpar e constante de auto-descoberta que jamais passaria em outra cidade. Aqui eu venho trocando de casca (Pensei em usar a expressão “trocando de pele”, mas isso não faz o menor sentido rs). Consigo entender mais o autor por estar aqui e sentir, apesar de não ter um panorama total de suas vivências, eu imagino e sinto ao mesmo tempo. Isso é massa!

Concordo quando ele fala que brancos não se percebem como brancos. Essa questão da universalidade da branquitude é um ponto chave pra reflexão de toda a sociedade. Fica a dica ai, pra você, pessoa branca que está lendo esse texto. POR QUE VOCÊ SE INCOMODA QUANDO É CHAMADO DE BRANCO/BRANCA? 😉 Pense sobre isso, pense sobre o que se sente!

Aponto aqui que as referências que ele traz são sensacionais. Vou até preparar uma listinha para conferi-las. Autoras e autores de alta qualidade. A maioria composta por pessoas negras!

Recomendo a leitura para se ter mais contato com um outro universo, que como um espelho nos mostra algo em nós, também.

Publicado por escrevendobarbaridades

Arquiteta urbanista e mestranda pelo PPGAU UFBA. Me tornei negra há 5 anos.

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